17/05/07

A UTOPIA fundamental como respirar

o meu amigo Ze Pinto, companheiro desde os tempos de Évora,enviou-me este texto do Guerra Junqueiro.
caramba, ontem como hoje..................
é por estas e por outras que cada vez menos acredito nem pátrias, nações, países e outras eminências pardas, que servem para arrebanhar seguidores, votos,favores, influencias dividendos, sem o menor respeito pelos outros.
Cheguei a uma altura da vida em que A UTOPIA É CADA VEZ MAIS NECESSÁRIA.
por isso para mim vale O SER HUMANO EM SI POR SI e MUITO MAIS POR AQUILO QUE FAZ.
Aqui vai o texto que tem,pasme-se, para mais de 100 anos.

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador;
e este,finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime  do País. [.] A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos [.] sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, [.] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

 Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896.

1 comentário:

marble disse...

é impressionante como 100 anos ou + não lavam faces...gosto do vosso blog, sóbrio e sincero..
visitem o meu blog em:

http://aridezfalsidade.blogspot.com